Lendas de Mar e Sobrevivência: As Histórias dos Primeiros Escravizados que Chegaram a São Tomé

Na memória coletiva de São Tomé, o mar não é apenas uma massa de água. É um guardião de segredos, um testemunho silencioso de dor, resistência e milagres. Nas noites de lua cheia, quando o oceano bate com força contra as falésias de Neves ou murmura entre as rochas de Santana, há quem diga que se pode ouvir um som que não vem do vento: é o canto distante de vozes que nunca chegaram a terra, mas que nunca se calaram. São os espíritos dos primeiros escravizados, aqueles que cruzaram o Atlântico em navios de madeira, apertados em porões escuros, e cujas histórias, embora não estejam nos livros oficiais, vivem nas lendas que os avós contam ao pé do fogo.

Estas não são histórias de datas exatas ou nomes registados. São narrativas orais, passadas de geração em geração, que misturam realidade histórica e simbolismo espiritual. Contam de tempestades que se acalmaram por milagre, de homens e mulheres que se transformaram em peixes para escapar da escravidão, de almas que escolheram permanecer no fundo do mar, em vez de pisar uma terra de sofrimento. São lendas de mar e sobrevivência — não apenas físicas, mas espirituais — e são a base da identidade santomense.

São Tomé foi um dos primeiros pontos do sistema colonial português no Atlântico. A partir do século XV, tornou-se uma feitoria e centro de tráfico de escravos, antes mesmo de se desenvolverem as grandes plantações de açúcar e cacau. Milhares de pessoas, vindas de regiões como o Congo, Angola, Benim e Guiné, foram trazidas à força para as ilhas. Muitos morreram durante a travessia. Outros foram usados como “experimento” de trabalho escravo em larga escala, modelo que depois se replicaria nas Américas. Mas, ao longo dos séculos, a dor desses primeiros tempos não se perdeu. Transformou-se em mito, em canto, em aviso.

Uma das lendas mais antigas fala de um navio que nunca atracou. Diz-se que, em meados do século XVI, um negreiro carregado de homens e mulheres do reino do Congo estava prestes a desembarcar em São Tomé quando uma tempestade repentina se abateu sobre ele. O mar ergueu-se como uma parede, os ventos rasgaram as velas, e o capitão perdeu o rumo. Durante três dias, o navio foi empurrado para longe da costa, até que, no terceiro amanhecer, desapareceu sem rastro. Os moradores da ilha, nas semanas seguintes, viram peixes dourados nadando em cardumes junto à superfície — e juraram que, ao olhar para eles, viam rostos familiares.

Hoje, ainda se conta que, quando o mar está calmo e a luz do sol entra fundo na água, é possível ver sombras no fundo, como se pessoas estivessem caminhando no leito oceânico. Dizem que são os “Filhos do Fundo”, almas que escolheram não desembarcar, que preferiram o abraço do oceano à vida de escravidão. Não são fantasmas. São guardiões. E, segundo a lenda, protegem os pescadores que respeitam o mar, guiando-os para águas férteis ou afastando-os de tempestades.

Outra história fala de uma mulher chamada Nzasi, que, durante a travessia, fez um pacto com o espírito do mar. Sabendo que, ao chegar à ilha, seria separada dos filhos e forçada a trabalhar nas roças, ela orou não por liberdade, mas por transformação. Na noite antes do desembarque, jogou-se ao mar. Mas, em vez de afundar, diz-se que foi envolvida por uma luz azul e transformada numa sereia de pele escura e cabelos longos como algas. Desde então, aparece a pescadores em momentos de perigo, mostrando o caminho de volta à costa ou avisando de tempestades com um canto agudo, como o de uma ave noturna.

Nzasi não é uma figura de conto de fadas. É uma mãe protetora, um símbolo da resistência feminina, da dor da separação e da escolha impossível entre vida e dignidade. Em algumas comunidades costeiras, ainda se evita pescar em certas áreas à noite, porque se acredita que é lá que ela habita. Oferecem-lhe flores, frutas ou copos de água antes de lançar as redes — não por medo, mas por respeito.

Mas nem todas as lendas são sobre transformação. Algumas são sobre sobrevivência coletiva. Conta-se que um grupo de escravizados, logo após desembarcar, fugiu para o interior da ilha, subindo as encostas do Pico Cão Grande. Perseguidos por cães e capatazes, perderam-se na floresta densa. Sem comida, sem água, já sem forças, acreditavam que iriam morrer. Foi então que, segundo a lenda, ouviram um som vindo do alto: um tambor distante, batendo em ritmo lento. Seguiram o som e encontraram uma clareira onde uma árvore gigantesca, coberta de musgo, parecia pulsar com vida própria. Sob ela, havia frutas maduras, água limpa e pegadas de animais que não atacavam.

Os homens e mulheres acreditaram que a árvore era viva, habitada por um espírito protetor. Chamaram-na de “Mãe da Floresta”. Ali, fundaram uma comunidade de cimarrões, vivendo em liberdade, longe dos olhos coloniais. A lenda diz que, sempre que um deles morria, era enterrado aos pés da árvore, e que, com o tempo, as raízes envolveram os corpos, tornando-os parte da própria floresta. Hoje, em algumas zonas do Parque Natural Ôbo, há árvores antigas onde os guias param e fazem silêncio — dizem que é lá que os espíritos dos primeiros fugitivos ainda vivem.

Estas histórias não são apenas mitos. São formas de preservar a memória de quem foi apagado da história oficial. Os arquivos coloniais raramente registram nomes, sentimentos ou atos de resistência. Mas a tradição oral não esquece. Através dessas lendas, os santomenses mantêm viva a consciência de que a sua existência é fruto de dor, mas também de coragem. A travessia do Atlântico não foi apenas um evento histórico — foi um trauma coletivo que se transformou em espiritualidade, em arte, em identidade.

Acredita-se, por exemplo, que o Tchiloli e o Puita, duas das principais manifestações culturais do arquipélago, tenham raízes nesse período. O Tchiloli, com sua história de justiça negada e vingança, pode ser lido como uma metáfora da escravidão e da luta por dignidade. O Puita, dança noturna dos espíritos, pode ser uma forma de honrar os mortos que nunca tiveram funeral. Até os tambores, tão presentes na música santomense, são vistos por muitos como uma ligação com os antepassados — cada batida é uma chamada, uma resposta, uma lembrança.

A relação com o mar também se reflete na pesca tradicional. Muitos pescadores ainda seguem práticas que vão além da técnica: não falam alto ao sair ao mar, evitam certos dias da lua, e nunca jogam lixo na água. Acreditam que o mar “ouve” e “responde”. Se alguém desrespeita, as redes voltam vazias, ou o tempo muda subitamente. Essas regras não são superstições — são leis de equilíbrio, nascidas da convivência com um ambiente que, ao mesmo tempo, dá e tira.

E há ainda os naufrágios esquecidos. Em várias praias da ilha, especialmente na costa norte, aparecem pedaços de madeira escura, ferrugem de correntes, âncoras sem navio. Arqueólogos já confirmaram que alguns desses restos pertencem a embarcações do século XVI e XVII. Mas, para os locais, não são apenas destroços. São marcos sagrados. Não se toca neles. Não se remove nada. São túmulos submersos, marcas do sofrimento que não deve ser perturbado.

Hoje, estas lendas enfrentam o desafio da modernidade. A geração mais jovem, muitas vezes, vê nelas apenas histórias antigas, desligadas da realidade. O turismo, por vezes, as transforma em espetáculos superficiais, sem contexto. Mas, ao mesmo tempo, há um movimento crescente de revalorização cultural. Professores, escritores e artistas têm usado estas narrativas para ensinar história, promover orgulho identitário e defender os direitos territoriais e ambientais.

Projetos como o Museu Nacional de São Tomé e Príncipe e iniciativas de educação comunitária têm incluído estas lendas como parte do património imaterial do país. Em 2021, um festival em Trindade foi dedicado exclusivamente às “vozes do mar”, com contadores de histórias, músicas tradicionais e oferendas simbólicas ao oceano. Foi um ato de memória, mas também de cura.

As lendas de mar e sobrevivência nos lembram que a história não começa nos livros. Começa nas vozes que se recusam a calar. Nos sons do oceano. Nas sombras das árvores. Na coragem de quem, mesmo diante do abismo, escolheu viver — e, ao viver, criou uma nova forma de ser.

E talvez, ao ouvir estas histórias, possamos entender melhor o que significa ser santomense: não apenas habitar uma ilha no oceano, mas carregar a memória de quem atravessou o mar e, mesmo sem chegar, nunca deixou de pertencer.

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