O que é o Puita? Conheça a Dança Noturna dos Espíritos e Seu Papel nas Tradições de São Tomé

Em São Tomé profunda, onde a eletricidade ainda não chegou e as noites são escuras como breu, há momentos em que o silêncio é quebrado por um som que parece vir de outro mundo: o bater rítmico de tambores, baixo e insistente, seguido por passos lentos, arrastados, como se alguém caminhasse sobre folhas molhadas. Não é um ritual qualquer. É o Puita, uma das manifestações culturais mais misteriosas e profundas do arquipélago — uma dança noturna que não é apenas performance, mas um diálogo com o invisível, um encontro entre os vivos e os mortos, entre a terra e o espírito.

O Puita não é dançado para entreter. É invocado. Surge em momentos de transição: após um falecimento, durante festas religiosas como o Divino Espírito Santo, ou em noites de lua cheia, quando se acredita que o véu entre os mundos é mais fino. Os participantes, sempre homens, vestem-se com roupas escuras, muitas vezes rasgadas, cobertas com folhas secas ou palha. Usam máscaras de madeira ou tecido, com feições exageradas, olhos fundos, bocas abertas em grito silencioso. Alguns andam descalços, outros usam sinos nos tornozelos. Movem-se em círculo, ao som de tambores graves e cantos guturais, num ritmo que parece imitar o batimento cardíaco.

Diz-se que, ao dançar o Puita, o homem deixa de ser ele mesmo. Torna-se um espírito — não um demónio, nem um morto específico, mas uma entidade ancestral, um guardião do equilíbrio. Acredita-se que, durante a dança, o corpo é habitado por forças que vieram do outro lado, trazendo mensagens, advertências ou bênçãos. Por isso, o Puita é tratado com reverência. Ninguém ri. Ninguém interrompe. E quem o observa faz isso em silêncio, com respeito, muitas vezes com um copo de água ou uma vela acesa ao lado.

A origem do Puita é envolta em mistério, mas os antropólogos e historiadores locais concordam com uma coisa: esta dança tem raízes profundas nas tradições espirituais africanas trazidas pelos escravizados. Em muitas culturas do Golfo da Guiné — especialmente entre os povos Fang, Bubi e Kongo —, existem rituais semelhantes em que os vivos invocam os mortos através da dança, da música e do transe. O Puita, então, não é uma invenção local, mas uma sobrevivência cultural, adaptada ao novo contexto insular, onde a dor da escravidão, o isolamento e a memória coletiva precisavam de um canal de expressão.

Durante séculos, os escravizados em São Tomé foram despojados de tudo: da liberdade, da terra, da identidade. Mas não conseguiram ser despojados da memória. Nas roças, à noite, depois do trabalho, reuniam-se em segredo. Dançavam. Cantavam. Chamavam os ancestrais. E, nesses momentos, recuperavam um pouco do que lhes fora roubado: a dignidade, a espiritualidade, a ligação com os que os tinham precedido. O Puita, nesse sentido, foi mais do que uma dança — foi um ato de resistência silenciosa, uma forma de manter viva a alma de um povo.

Com o tempo, o ritual foi integrado na vida comunitária, especialmente nas zonas rurais do interior da ilha. Hoje, ainda é praticado em aldeias como Neves, Trindade, Santana e São João dos Angolares. Mas não é uma tradição estática. Evoluiu, fundiu-se com elementos do catolicismo trazido pelos portugueses, e tornou-se parte do calendário religioso. É comum ver o Puita durante as festas do Divino Espírito Santo, onde convive com procissões, missas e outras manifestações católicas. Nesse contexto, a dança não é vista como oposta à fé, mas como uma expressão complementar da espiritualidade — uma forma de honrar os mortos, pedir proteção e manter a harmonia com o mundo invisível.

O que torna o Puita tão poderoso é o seu caráter não performático. Em muitas culturas, as danças tradicionais são ensaiadas, coreografadas, apresentadas para turistas. O Puita, no entanto, não é para espectadores. É um rito sagrado, e quem o dança não está representando um papel — está vivendo uma experiência. Os dançarinos são escolhidos com cuidado, muitas vezes por linhagem familiar ou por terem tido sonhos ou visões. Antes da dança, passam por períodos de isolamento, jejum e purificação. Alguns dizem que sentem uma força a puxá-los para dentro do círculo, como se não fossem eles quem decidem dançar, mas o espírito que os escolhe.

A música do Puita é tão importante quanto o movimento. É tocada por um pequeno grupo de percussionistas, com tambores de madeira oca cobertos com pele de animal. Os ritmos são lentos, hipnóticos, com padrões que se repetem e se intensificam ao longo da noite. Há também cantos guturais, sons que não são palavras, mas vibrações — como chamadas para o além. Acredita-se que esses sons abrem um caminho para os espíritos, permitindo que desçam à terra e caminhem entre os vivos.

Em algumas comunidades, o Puita tem também uma função social e terapêutica. Quando alguém morre sem funeral digno — por pobreza, acidente ou abandono —, a dança pode ser realizada para dar descanso ao espírito. Acredita-se que, se um morto não for devidamente lembrado, seu espírito fica preso, pode causar doenças, má sorte ou desequilíbrio na comunidade. O Puita, então, serve como um funeral simbólico, uma forma de dizer: “Nós lembramos. Nós honramos. Tu podes descansar.”

Há também relatos de que o Puita é usado em momentos de crise coletiva: seca, doença, conflito. Nesses casos, a dança é um pedido de ajuda, uma forma de perguntar aos ancestrais: O que fizemos de errado? Como podemos nos corrigir? O movimento lento, o silêncio do público, o fogo baixo — tudo contribui para criar um ambiente de reflexão, de purificação. Não é um espetáculo. É uma oração coletiva em forma de dança.

Apesar da sua importância, o Puita enfrenta ameaças. A modernização, a migração jovem para a cidade, a influência de religiões que condenam práticas “não cristãs” e a falta de apoio institucional põem em risco a continuidade deste ritual. Em algumas zonas urbanas, o Puita é visto como “superstição” ou “coisa de velhos”. Jovens, muitas vezes, não querem aprender. Os tambores não são mais feitos com a mesma frequência. As máscaras desaparecem.

Mas, ao mesmo tempo, há um movimento crescente de resgate cultural. Professores, antropólogos e membros da comunidade têm trabalhado para documentar o Puita, gravar os ritmos, registar os testemunhos dos mais velhos. Projetos de educação ambiental e cultural nas escolas rurais já incluem aulas sobre o Puita, explicando que não é apenas uma dança — é um património imaterial, uma forma de preservar a identidade santomense.

Organizações como a Fundação Príncipe e o Instituto de Artes e Ofícios têm apoiado iniciativas para fortalecer tradições como esta, não como espetáculo turístico, mas como prática viva, digna de respeito. Em 2022, houve um festival cultural em Trindade onde o Puita foi apresentado com uma explicação detalhada ao público, em português e em forro, para que todos pudessem entender o seu significado profundo.

O Puita nos lembra que, em São Tomé, a cultura não está apenas nos livros ou nos museus. Está nas noites escuras, nos tambores que ecoam entre as montanhas, nos passos lentos de homens que se tornam espíritos. É uma tradição que fala de dor, de memória, de justiça espiritual. É um lembrete de que os mortos não estão mortos — vivem na voz do vento, na sombra das árvores, no ritmo do tambor.

E talvez, ao compreender o Puita, possamos entender melhor o que significa ser santomense: não apenas viver numa ilha no meio do oceano, mas carregar uma história que não se conta com palavras — que se dança, à noite, em silêncio, com os pés na terra e os olhos voltados para o invisível.

Porque, enquanto houver quem dance o Puita, os ancestrais não terão morrido. E enquanto os ancestrais não forem esquecidos, a alma de São Tomé continuará a bater, lenta e firmemente, como um tambor na escuridão.

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